Um horrível começo.

Imagem de flowers, sky, and rose

Um horrível começo.

“Você tem uma nova mensagem”.

Ouvir essas poucas palavras da caixa eletrônica me fazem morrer de curiosidade e correr desajeitada pela casa, esbarrando em objetos que eu não sabia que estavam ali até ao telefone para ouvi-la, porém também me deixa hesitada em apertar o botão pois pode ser mensagem da mamãe.

“Ariel, aqui é a mamãe. Como você está? Nunca mais me ligou ou deu notícias, esqueceu de mim? Tudo bem no trabalho? Tenho uma notícia maravilhosa para te dar: o Gabriel saiu da clínica para, finalmente, ser cirurgião! Agora só falta você, querida. Confio em você e sei que vai conseguir. Um beijo!”

Eu disse que era a mamãe. Argh, quão odiosas são essas mensagens da mamãe. Calma, sei que posso parecer amarga em relação a isso, mas quando ela me liga é sempre para falar sobre o Gabriel, o meu primo formado em medicina, o sonho que ela queria que eu realizasse. Como sempre, sem um eu te amo ou um tenho orgulho de você. Para a mamãe, ser uma das advogadas mais jovens com maior número de casos ganhos e pertencer ao escritório de maior importância do estado não basta, eu deveria ter feito medicina e fim. Não posso agrada-la quanto a isso.

“Ice-age heat wave, can’t complain. If the world’s at large, why should I remain? Walked away to another plan, Gonna find another place, maybe one I can stand…”

Mais uma vez esta música no despertador… de minha música favorita passou para a mais odiada de sempre, mas eu não irei tira-la. É uma estratégia. Quando toca, levanto super rápido para desligar o despertador e me livrar dessa melodia irritante, me fazendo despertar e ter um mau humor que irá perdurar o dia inteiro.

Mas nem sempre essa estratégia funciona. Mais cinco minutos, por favor!

Com os cabelos parecendo um ninho de pássaro e sem um pé do par de meias, me certifico que não havia nenhuma pimenta na minha cama pois meus olhos ardiam como se tivessem várias dentro. Me lamento da vida por uns dez segundos antes de finalmente levantar da cama e me arrumar para o meu único rumo esta manhã: biblioteca.

“Me arrumar” se resume em uma calça, um tênis e um moletom. Não é por que eu sou advogada que uso roupas sociais o tempo todo, acreditem.

***

– Bom dia, Ariel – me cumprimentava em um tom vibrante a velhinha que administrava a biblioteca com um largo sorriso.

Ela me inspira. Tem 79 anos, sem filhos, seus dois amores morreram e mal consegue lembrar o seu próprio nome. Isso não é o suficiente para tirar o sorriso do seu rosto enquanto eu, jovem e com uma qualidade de vida ótima, tenho problemas com depressão e transtorno de personalidade. Mas como dizia Charlie Brown, “cada um tem a sua história eu estou aqui para aprender, não para julgar”.

– Bom dia, dona Flor – respondi com o mesmo entusiasmo. Pelo menos tentei.

Olhei ao redor e a biblioteca parecia vazia. Não sei se isso me deixa alegre ou triste. Pela janela dava para observar uma das melhores baladas da cidade que ficava a uns três quarteirões da biblioteca e, como sempre, estava super lotada, tendo festa até essa hora, e a biblioteca vazia. Essa geração nunca vai entender o quão maravilhoso é o cheiro dos livros da biblioteca.

Desliguei o meu celular para ficar longe do mundo Hi-Tec e me focar apenas na Jane Austen, uma das minhas autoras favoritas. Não vou em estender muito pois minha história de amor por essa mulher é super chata e entediante, porém considero-a a escritora do melhor romance de todos os tempos: Orgulho e Preconceito.

Um barulho de 300 livros caindo ao mesmo tempo interrompeu a minha concentração e me deu um puta susto, me fazendo soltar um grito fino que me fez rir logo após. O barulho veio de três prateleiras atrás de mim, corri para saber o que era. Sou curiosa mesmo.

Um garoto tirava uns sete livros de cima dele e eu não consegui me controlar, comecei a rir e ele me olhava sério, tentando não ficar sem graça. Não conseguia me controlar. Eu não ri por mal, eu ri por ele, não ri dele.

– Precisa de ajuda? – perguntei tentando recuperar o fôlego.
– Quer me ajudar mesmo ou apenas rir da minha situação? – perguntou sério.
– Desculpe por estar rindo, não estou rindo por mal, eu juro – eu disse pegando os livros de cima dele e estendendo a mão para levanta-lo.

Ele continuava sério para mim e eu parei de rir. Não gosto de pessoas sem senso de humor então tentei ser breve: ajuda-lo e voltar para a Jane.

– Obrigado pela ajuda… e por rir também – ele sorriu enquanto seus olhos estavam loucos olhando para cada pedaço do meu rosto, explorando-me – me manti sério pois estava envergonhado, perdoe-me. Não é fácil ser baixinho. Não queria causar má impressão então prazer, sou o Justin – estendeu a mão para mim.
– Eu que não queria causar má impressão, afinal eu que estava rindo.
– Tendo uma crise, na verdade – ele me interrompeu.
– Prazer, Ariel – eu completei sorrindo – mas acredite em mim, não ri de você, e sim por você.
– Ariel como a da Disney? Não me chame de gay por causa disso, cresci em um lar com muitas garotas – ele perguntou curioso com um olhar de “matei a charada”.
– Bem, na verdade não – eu soltei um riso – Não gosto de conto de fadas, não acredito em sereias e o meu cabelo nem vermelho é – respondi sem tirar o sorriso do rosto – mas a sua lógica está correta. Prefiro o significado natural, que é “Leão de Deus.

Percebi que estava falando demais, meu normal. Permaneci em silêncio esperando a resposta dele, sem tirar os olhos dos seus olhos tão verdes.

– Religiosa? – ele perguntou sorrindo enquanto passava a mão no seu cabelo liso, tirando todo o penteado.
– Não muito, mas o significado me cativa – respondi e a conversa finalizou.

Ficou um incrível silêncio por longos vintes segundos, parecendo ser vinte horas até que ele quebrou o gelo se despedindo, indo namorar o Diário de Ane Frank que, pelo seu entusiasmo, parecia ser o seu livro favorito.

Ele se sentou em um sofá ao lado do meu, eu focada na Jane e ele na Ane.

***

– Boa tarde, chefe! – eu o cumprimentei já imaginando a resposta.
– Por favor, Ariel, me chame pelo meu nome. Aqui somos todos amigos – ele disse descendo um gole de café pela garganta.
– Boa tarde, Nathan – respondi sorrindo.
– Isso! Agora sim! A propósito, temos uma reunião hoje, preciso que venha comigo.

Entramos e estava completamente vazia. O meu escritório ficava no andar 19º, pela janela da sala de reuniões havia uma linda vista de toda a cidade, aproveitei e sentei no lugar em que essa vista ficasse toda para mim. Não percebi a demora dos atrasados olhando toda aquela vista.

– Cheguei atrasado, senhor, peço perdão. Foi o trânsito, está cada vez mais caótico – Alberto entrou e cumprimentou o Nathan com um aperto de mão firme, ajeitando o seu terno e sentando na mesa.

Logo após ele todos chegaram, um atrás do outro, de forma automática. Não demorou muito para o chefe começar a reunião e Nathan é sempre objetivo, disse o assunto sem muita enrolação: a polícia local estava fazendo transferência de um caso para nós, e ele escolheria o melhor advogado para conceder o caso.

– O caso é de nível A, ou seja, não posso dar este caso para uma pessoa irresponsável ou que não se comprometa. O governo está avaliando-o juntamente com a polícia e agora vamos entrar em cena – trocadilho, os que entenderam riram – Meus critérios de avaliação de cada um para dar o caso serão: nível de interesse, quantos casos já ganharam, nível de experiência em advocacia, como se porta em situações delicadas e sensíveis.

O mistério estava no ar pois Nathan ainda não tinha especificado o caso. Ele é muito cortês com todos mas quando se trata de trabalho é o chefe mais carrasco de todos. Tomando café com você ele é um cavalheiro, estudando um caso com você ele é o seu treinador de futebol, seu pai carrasco, seu professor que te manda estudar 40 páginas e coloca 10 questões na prova.

– O caso é de uma garota de 16 anos que matou os pais a facadas enquanto dormiam e antes de realizar o ato recebeu uma ligação anonima. Suspeita que ela sofria maus-tratos, diagnosticada com esquizofrenia.

Começou um barulho enorme na sala de reunião, todos querendo o caso e quase implorando para o Nathan entregar a eles. Nathan detestava quando isso acontecia então eu permaneci calada. Nathan ficou parado olhando sério para cada um esperando o barulho abaixar, típico dele.

– Acabaram? Então… vou pedir que cada um fale o por que que eu devo dar o caso a você.

Oportunidade ótima para cada um se gabar de quantos casos ganharam, de como eram facilmente tranquilos em situações como essa e que merecem este caso. Admito que eu suava frio esperando a minha fez, não vou negar que eu estava muito esperançosa que iria conseguir ficar com o caso.

Finalmente minha vez de falar. Não estrague tudo, Ariel.

– Sou jovem e se for por nível de experiência com certeza ja perdi, mas acredito que com os casos que peguei ao longo da minha carreira, tenho experiência suficiente para lidar com mais um. Nível A não é fácil, sabemos, mas isso não é motivo para me desanimar. Acredito que eu tenha total capacidade para acompanhar e ganhar este caso. Sou ambiciosa, faço o meu trabalho com foco na vitória e seria um grande desafio para mim recebe-lo.

Nathan me encarava sério, com os braços cruzados, prestando atenção em cada palavra minha. Vi uns rostos de negação de alguns presentes na sala de reunião mas dei de ombros.

– Foi bom ouvir todos mas, infelizmente e felizmente, revi todo o histórico de carreira de vocês e já fiz a minha decisão antes de marcar essa reunião – Nathan falava calmo e todos estavam super tensos, com olhos arregalados, esperançosos para serem eles.

– Com todo respeito, chefe, mas se já tinha em mente, por que marcou? – perguntou alguém que eu nunca tinha visto no escritório.

– Por que todos aqui são capazes de ganhar esse caso e com os discursos, esperava que algum de vocês mudassem a minha opinião. Mas considerando todos os discursos e histórico, esse caso será da Ariel. Boa tarde à todos.

Ele finalizou a reunião colocando a pasta do caso na minha frente. Eu, surpresa, com a boca aberta e sem acreditar, comemorei disfarçadamente. Todos se questionaram e até ouvi uns “como pode? Ela só tem 27 anos! Eu tenho 27 anos de carreira, não de idade”.

Alguns se atreveram a ir atrás do Nathan para questionar. Bem, o que posso fazer? Fui em rumo ao meu escritório e ouvi o Nathan falando da sala dele “De 9 casos, ela ganhou 7, todos de nível A. É uma das melhores advogadas do estado, apesar da pouca idade acredito que seja mais experiente que muitos advogados por aqui, então eu não errei na minha escolha”. Apenas passei sorrindo e orgulhosa de mim mesma.