Mundo pequeno.

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Mundo pequeno.

“Abandonei” a mamãe e o meu padrasto tem pouco menos de dois anos. Se eu estou feliz de ter deixado tudo para trás? Não sei dizer, talvez um pouco. Fugir das humilhações constantes do meu padrasto me fizeram ter um pouco mais de tranquilidade psicologicamente, evitando que eu precise tomar todos aqueles remédios receitados por uns dois ou três psicólogos e me deixou mais focada no meu trabalho, já que sou uma viciada em trabalho.


Já “abandonar” a mamãe foi parcialmente difícil. Já me enchia os ouvidos com a insistente conversa: “tenho tanto orgulho do Gabriel”, “era o meu sonho fazer medicina”, “eu queria essa vida para você”, “está gastando tempo da sua vida nesse escritório, querida, deveria estar em um hospital”, palavras dela. Essa vontade fervente da mamãe veio após a morte do papai… após um acidente de carro, papai foi levado ao hospital e no meio da cirurgia, não resistiu. Acho que ela adquiriu algum tipo de trauma, como se eu sendo médica pudesse consertar o erro do médico que operou papai mas não conseguiu em outras pessoas… bom, não sei bem, mas por hora isso não importa muito.


***


Seria legal se o Arthur ficasse em silêncio por cinco minutos. É divertido e interessante conversar com ele mas ele se empolga e fica difícil acompanhar. Ele me contava como foi a sua viagem para a Roma e ele ama coisas rústicas e antigas, então eu já imaginava que a euforia seria enorme e que ele falaria bastante sobre. O que não é mal, adoro a Roma tanto quanto ele, mas ele poderia falar um pouco mais devagar…


– …e você não tem noção do sentimento que é ver o Coliseu de perto. Se ja é maravilhoso de dia, a noite iluminada é mais maravilhosa ainda. Eu poderia passar três vidas olhando para aquela paisagem tranquilamente, simplesmente admirando quantos séculos se passaram e o Coliseu ainda estar erguido. Foi muito difícil voltar para Lansing por que por mais que seja a capital de Michigan, nossa cidade é muito parada. Em Roma, as coisas acontecem o tempo todo – ele falou sem dar uma pausa para respirar.
– Imagino o quão animado você esteja, eu deveria ter ido com você – eu respondi sorrindo me culpando por dentro de não ter ido.
– Por que Lansing tem que ser tão chato? Olhe em volta, não tem nada mais tranquilo que isso. Nada acontece aqui, que saco – ele reclamou.
– Ah, eu gosto de tranquilidade, silêncio… para mim Lansing é a melhor cidade do mundo – eu disse rindo – nada mais chato que muito barulho o tempo todo.
– Não somos parecidos em nada mesmo. Uma pena que você seja viciada nesse seu trabalho e não quis vim comigo – ele disse me dando uma bronca após revirar os olhos.
– Não me faça eu me sentir mais culpada, você é… – fui interrompida com uma ligação no celular, era do trabalho – preciso atender, é do trabalho…
– Você precisa descansar desse trabalho por pelo menos dois minutos – ele disse.
– Desculpa – o abracei – vamos viajar juntos ainda, pode apostar – atendi a ligação correndo para não desligarem.


***


– Bom dia, Ariel – Lauren me cumprimentou com um largo sorriso no rosto.
– Bom dia, lau – respondi – por que está com esse sorriso hoje? Até melhorou o meu dia.
– Alguém parece estar noiva – ela levantou a mão e mostrou a aliança.


Corri para abraça-la e dar felicidades. Lauren estava eufórica. Enquanto me contava como foi o pedido de casamento, gritava, pulava, ria, chorava, não se aquietava. Sempre achei casamento a coisa mais mágica do mundo, mas nunca tive vontade de casar. É meio contraditório… adoro ver a união de duas pessoas, mas eu não me vejo casada com ninguém.


– Chega de conversa, ao trabalho todo mundo – o chefe chegou e todos correram para os seus escritórios.


Fui para a sala de reunião… hoje tem uma reunião marcada comigo e com os dois melhores advogados do estado – eles foram contratados pelo prefeito da cidade – juntamente com o Nathan, o chefe.


Não demorou muito para a reunião começar. Sentei no mesmo lugar de sempre: cadeira que dá a vista perfeita da cidade. Eles tagarelavam o quanto o caso era sério e o quão cuidado eu deveria ter. Me senti subestimada, mas tudo bem. Enquanto eu olhava para o nada, entrou um garoto na sala para entregar café.


– Obrigada.
Respondi sem olha-lo porém quando ele respondeu eu reconheci a voz. Levantei o rosto para vê-lo e era o garoto da biblioteca. Fiquei sem entender nada.
– Ahn, Justin? – perguntei.
– Ah, oi menina-que-ficou-rindo-de-mim – ele respondeu sorrindo.
– Ariel, esqueceu? – eu ri.


Percebi que o Nathan me olhava sério, como quem diz “para com isso, garota”, então assim o fiz. Não tinha muita saída. Reparei todos os outros advogados e eles olhavam para o Justin com desprezo, desmerecendo-o. Isso fez meu sangue ferver de raiva, não entendi por que, mas claro que tive que deixar para lá.


Acabou a reunião e dei um suspiro de alívio. Estava saindo até que o Nathan me para.


– O que foi isso hoje? – perguntou sério.
– Seja mais específico, por favor – respondi séria, já imaginava o que ele iria falar.
– Uma moça como você, uma das advogadas mais sérias desses estado, de conversinha com um entregador de café na frente dos advogados, você está louca?
– Entregador de café também é gente, um ser humano, não há por que eu trata-lo com indiferença ou menosprezo. E devo dizer que o nome dele é Justin. Deveria saber já que o senhor o contratou – respondi.


Sim, fui meio grossa porém eu não falaria essas coisas se eu não pudesse. Entre mil aspas, eu tenho uma certa moral para debater com o chefe, uma vez que ninguém do escritório pode.


– Que isso não se repita, não em uma reunião – ele me respondeu furioso e saiu da sala, ajeitando o cabelo com as mãos.


De longe o Justin me observava. Retribuí o olhar e sorri, ele abaixou a cabeça e saiu. Não entendi bem, resolvi ir atrás dele, claro.


Coloquei as mãos nos olhos dele e senti sua bochecha curvar, de certa ele sorriu.


– Adivinha quem é – eu disse.
– Não esqueço sua voz – ele respondeu tirando minhas mãos e virando de frente para mim – mundo pequeno ou coincidência? Não imaginaria que tu trabalhava aqui. E pelo que eu soube, é uma das mais importantes do escritório.
– Eles mentiram – eu disse sorrindo – trabalha aqui a muito tempo? Nunca te vi por aqui.
– Comecei hoje e as pessoas por aqui não parecem muito simpáticas, só a Lauren – ele disse olhando para baixo e dando um sorriso de canto.
– Também não me adaptei bem no meu primeiro dia e até hoje umas pessoas não gostam de mim, é inevitável. Somos legais demais para elas gostarem de nós – eu respondi e ele deu um largo sorriso, me encarando por uns sete segundos em um total silêncio.


Tempo suficiente para me fazer analisar sua barba um pouco mais crescida, seu cabelo raspado com corte militar e seus olhos verdes.
– Se você quiser tomar um café, é só me chamar – ele disse quebrando aquele silêncio.
– Literalmente ou…? – perguntei.
– Eu disse no sentido sair para tomar um café – ele riu.
– Eu aceito – retribui o riso e ele saiu.


***


Era tarde e eu ainda estava no escritório. O Arthur me convidou para sair porém eu não estava com muito clima. Revisei algumas papeladas e suspirei, tinha muito trabalho ainda para fazer.


– Oi? – ouvi três batidas na porta que estava aberta, era o Justin – vim aqui para perguntar se não quer que eu te leve para casa. Poderíamos ir na minha moto.
Eu estava totalmente desarrumada, com os cabelos bagunçados, roupa amassada, olhos cansados… enfim, um desastre. Soltei o meu cabelo e os penteei com os dedos para tentar melhorar a aparência, espero que não tenha sido uma tentativa em vão.

– Ahn, é… eu trouxe meu carro – eu respondi sem jeito e ele balançou a cabeça, colocando a mão na nuca – mas seria um prazer se você me acompanhasse – respondi tentando amenizar a situação.
– Sempre fica aqui até tarde? – perguntou.
– Bem, não. Recebi um caso nível A e está me enlouquecendo. O que faz aqui até tarde?
– Sei que irá ganha-lo – ele disse sorrindo e eu sorri de volta – Me distraí na biblioteca.
– Algum livro caiu dessa vez? – perguntei rindo.
– Esqueça isso – ele disse ficando sem graça.


Apenas levantei e arrumei as coisas para sair com ele. No final decidimos ir com a moto dele por que eu nunca tinha subido em uma, eu morria de medo. Ele insistiu tanto e assenti. De início agarrei no corpo dele e o apertei, com medo de cair. Mas, depois de hoje, depois de sentir o vento batendo em meu rosto e meu cabelo voando, a adrenalina que era, passou o medo.


– Não doeu, viu? – ele disse.
– Doeu sim.
– O que doeu foi seu aperto no meu peito – ele disse sorrindo e eu ri.
– E se eu caísse e morresse? Ia ser um problemão para você – respondi.
– Dramáaaatica – ele disse e eu dei um tapa nele.


Entramos em uma lanchonete e eu pedi uma xícara enorme de café preto e ele pediu um suco. Dá para perceber o quanto somos diferentes.


– Mas fala sério, você ficou bravo quando eu ri de você na biblioteca? – perguntei.

– Um pouco, mas depois passou – ele respondeu rindo – mas depois que te vi fiquei encantado e de raiva passou para vergonha.
– Eu lembro que no dia eu estava puta desarrumada, de moletom, cabelo parecendo um ninho… como assim ficou “encantado”? – perguntei.
– Te achei bonita desde o primeiro dia que te vi – ele respondeu sorrindo olhando dentro dos meus olhos. Corei.


Mudei de assunto ao sentir que meu estômago estava com um enorme frio.

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